RENASCITUDES

sábado, 8 de setembro de 2012

Conflitos com a Alma


Repousei a alma
pelo tempo da espera...
Perdi as horas... perdi-me...

Despertei a alma
em tempo de desassossego...
Perdi a noção... perdi o chão...

Lavei a alma
com águas da franqueza...
sem delicadeza, perdi a razão.


Autoria: Ilka Vieira

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Transportadores da Saudade


Eles rabiscam a dor até rachá-la
como se fosse impulsivo
o domínio de enterrá-la
na solução de extingui-la.

Resmudam paisagens, melodias, 

metas, costumes, fantasias...
Mas a saudade trelente insiste,
perpetuando-os tristes.

Oh, dor intransigente,

acompanhante inconveniente,
sem aviso, pausa e compaixão!

Deixa-os ver tuas longas estradas

ilusoriamente embelezadas,
mostrando-lhes saídas,
secretas bifurcações.

Ainda que a solução seja o tempo,

favoreça-os com a virada do vento,
no plantio de uma nova dor.

Autoria: Ilka Vieira

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Alicerce Marinho


Reinvade estas águas que
obsecram pela tua moradia...
Vem...
Vem refogar teus temperos
marinhos e embriagadores
ao meu apurado paladar...

Deixa que eu te descubra
entre os mistérios
da minha outra vida
quando eu não marejava,
apenas buscava-te pela minha secura
em maré vazia...

Refaz teu marco no meu fundo
e apossa-se da minha riqueza.
Contigo não sofro
o estalido da dor,
cedo à tua tímida ternura
lacrando minha correnteza.

E antes mesmo que
venha novamente guardar-me
para o teu sonho mais lindo,
abro-me para o teu repouso
nos alicerces da
nossa realidade:
Tornei-me um oceano aberto,
mas só tu cabes em mim...

Autoria: Ilka Vieira

Desapontamento


Perdi o ponto
enquanto dançava
desapontei a alma embriagada
empobreci o corpo fragilizado
cruzei os pés
confiando em pontas enrijecidas,
mas as sobras apontaram-me
o pontilhado da despedida.

Autoria: Ilka Vieira

Guardador de Lágrimas


Quando a minha lágrima correr,
pegue-me em seu colo,
dê-me seus braços em agasalho,
mostre-me o mais fácil atalho
que a dor não me deixa ver.

Guarde-me como criança,
enfeite minha trança,
conte-me histórias... segredos,
faça descansar a minha guarda,
derrote o monstro do meu medo.

Por fim,
componha uma cantiga bem bonita,
moderna, infantil ou erudita,
transformando essa tristeza
num lago-fortaleza,
guardador fiel
de memória cruel,
intérprete de melodias latentes
que a vida, como serpente,
não me permite esquecer.


Autoria: Ilka Vieira

Rosas em Cinzas



Acordaram as minhas rosas

em plena quarta-feira de cinzas,

que pena !

Retornaram ao vaso de cristal...

reassumiram a função,

mas o coração sente...

não mente...

nem tão pouco é de cristal

e só queria

continuar brincando o carnaval.


Autoria: Ilka Vieira

Quem Sou...


Sempre me vês com a face sorridente
Aspirando ou plantando flores belas
Não sabes que nesta alegria torrente
Plantei e não colhi muitas delas.

Quando me encontras  adornada
Com olhares de quem vai se dar
Não sabes que sou indomada
Virei fera no meu derivar.

Quando me sentires escondida
Guardada no meu eu profundo
Entendas minh’alma recolhida
Ela chora as dores do mundo.

Quando me pegares sonhando
Banhada pela minha poesia
Só sintas o que estou criando
Não acordes a minha magia.

Quando me vires quase nua
Descortinando o nosso leito
Faze de mim apenas a lua
Despindo o coração do peito

Se descobrires o meu lado criança
Brinca comigo nos contos de fadas
Compartilha comigo a esperança
De ainda ser um dia muito amada.

Autoria Texto e Foto: Ilka Vieira