RENASCITUDES
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Efêmero
Ao longo dos braços meus, em tardes chuvosas
reservei pra ti o meu abraço mais silencioso.
As palavras entre nós envelheceram dolorosas
gritando pelo desgaste de um tempo nebuloso.
Meu mundo perfumado esteve à tua espera,
mas a pior ausência é a presença distante.
Nem retratos antigos nos dirão da primavera,
foram todos queimados pela ira resultante.
Sei que há um novo barco ansioso por ti.
Lá fora ele acena e impulsiona a pressa...
Nem há gritos pra proclamar a dor que senti,
nem há forças pra citar uma falsa promessa.
Agora, o vento queria arrumar as folhas caídas...
Não há tempo, o inverno mostra toda a lama.
O nosso abismo se abre nas horas vencidas,
meu choro sai pela fenda do lençol na cama.
Autoria: Ilka Vieira
O Porto
Mágica cidade do Porto, abrigo pra se renascer!
Terra com alma de mãe, cheiro de poesia.
Silêncio matinal chamando o entardecer,
Sorri o Porto afagando a melancolia.
Não há como vendar os olhares solidários
Entre o Porto e Gaia num abraço à distância.
E o Douro guardando nos seus fiéis cenários
Abundantes lágrimas nos rigores da observância.
Tão perto e tão sozinhos, Gaia e o Porto se acenam...
Compartilham chuva, sol, segredos de tantas luas...
E, emoldurados pela plateia, eles contracenam
Histórias de povo que se revelam nas ruas...
E o Porto, ali colorindo janelas num coradouro,
Produz as notas de um fado na lembrança,
Banha-se de estímulo e vida no rio Douro
E doa à sua plateia a fé da bonança.
Autoria: Ilka Vieira
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
A Minha Outra Face
Inquieta sombra trago pendurada
reverso do que aprecio e exponho.
Somos um só corpo ligado a duas almas:
uma guardada pela agonia oportunista,
a outra resgatada pela fantasia contestável.
Somos duas em uma só plataforma:
uma partindo, a outra estacionada,
adormecida,
proveta de sonhos,
flor artesanal...
Alojamo-nos no mesmo barco;
enquanto uma rema,
a outra mergulha e desapropria-se.
Olhamos na mesma direção,
mas damos formas diferentes
a uma única imagem:
uma encarcera a lua e a outra
faz sorrir uma lua encarcerada.
Formamo-nos no mesmo útero e
por conseguinte,
afagadas pela mesma mão.
Buscamos vidas na mesma vida,
enquanto uma vive intensamente,
a outra finge que o faz.
Autoria: Ilka Vieira
Praga
Quando eu me deitar em sono eterno
Segura o tempo e sonha por mim
Deixa secar os lençois do inverno
Brinca na grama e preserva o capim.
A minha sombra desenhada na parede
Vai te pedir o sol de todos os dias
Vai sorrir com o embalo de uma rede
Vai trazer de volta nossas melodias.
Não escolha a palavra certa e bonita
Alinha o teu silencio franco do olhar
Qualquer que seja a frase contradita
Será bem guardada no nosso altar.
Por fim, sonha comigo, sonha por nós
Faz um sonho se vestir de primaveras
Colhe as flores e com elas fica a sós
E como praga estarei entre as heras.
Autoria: Ilka Vieira
domingo, 21 de outubro de 2012
Minha Cor de Rosa
Preciso resgatar a minha Cor-de-Rosa!
Perdi-a no decorrer da vida
Tornei-me imbatível e nebulosa,
Criando-me fragilmente fortalecida.
Fui trancando o glamour
Abrindo o olhar valente
Apagando meu abajour,
Fiz-me mulher inevidente.
Deixando a jarra vazia sobre a mesa,
Flores ao relento pediam-me moradia.
Saindo das paixões à francesa,
Perdi a noção de companhia.
Desmarcando parcerias de dança,
Esqueci como dançar...
O silêncio foi marcando o descompasso...
Não dancei, nem vi o dia raiar.
Hoje, a farda impecável
Faz-se mais feia do que a roupa desbotada.
O dedo indicador ordenável
Impulsiona minha alma delicada.
Agora entendo:
Vão-se as responsabilidades exageradas...
De nada vale a vida ou vale quase nada,
Se a minha cor-mulher está tão recolhida
Se a minha cor-de-rosa está descolorida...
Que venha o meu pôr-de-cor,
Colorirei...
Que caiam as pétalas,
Brotarei, sei que brotarei!
Autoria: Ilka Vieira
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Último Ato
... E o peito embutiu o som em si
A melodia findou chorando em dó
Era tarde, passou a lua, não a vi
Borrei de red o blue, noite em pó.
Tic-tac , pêndulo entre mim e o vão
Paisagens de outono traçando destino
Despi a alma em voto de comunhão
Corpo presente sem tom de figurino.
Já havia cinzas, mas acendi as velas
No passo lento minha estrela apagou
Criei por mim minhas próprias celas
Impossível fugir da morte se ela chegou.
Beijou-me a vida, despediu-se de mim
Como num voo brando soltei a mão
Senti a suave cobertura de jasmim
E no último ato afaguei meu coração.
Autoria: Ilka Vieira
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Desenlace
Quando descolei meu corpo do teu
Não vi o que deixara para trás
Nem pensei nos impulsos do meu eu
Joguei tudo fora, já não queria mais.
E as sombras somem e regressam
Sinalizando que a paixão nada é
Tombei do alto e hoje me atravessam
Lembranças extravasadas pela chaminé.
Não venhas não, ilusão vencida!
É tarde e já furtei tua hora
Mas de joelhos e arrependida
Parto de alma vazia, mas que chora...
Autoria: Ilka Vieira
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