RENASCITUDES

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Obrigada pelas Flores



Tantos anos se passaram...
Tantas recordações sobreviveram...
E as mágoas se transformaram?
Meus sentimentos, não morreram?

Eis aqui doces palavras
alinhadas num belo cartão,
mas não respondem às dúvidas
que deixaste no meu coração.

Da tua partida, fiz-me decidida...
Do teu silêncio, fiz meu canto liberto...
Do nosso amor, fiz-me ressarcida,
provando-me que, com você, vivia no deserto.

Hoje, chegas tão próximo enviando-me flores,
mas não alcanças a proximidade que há entre nós.
Arranca-me um vago sorriso sem furta-cores
e a certeza de que flores não desatarão meus nós.

Autoria: Ilka Vieira



Foi-se a Criança...



A criança que em mim ainda habitava
Perdeu-se abraçada a um rochedo
Já não faz sonhos daquilo que amava
E de amar passou a sentir medo.

As brincadeiras adultas recolhidas
Guardadas no zelo do que se pesa
Pesadas pelo tempo e tão vencidas
Adoçam-se apenas pra uma reza.

A idade avança e o coração endurece
Já não há criança e nem juventude
Minh’alma hoje apenas se abastece
Da voz fechada em plena quietude.

E a infância que alegra a velhice
Aprecio naquele que a conservou
Meu jeito solto de meninice
Precocemente a dor o apagou.

Autoria: Ilka Vieira

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sonho Adiado




Ela desce a ladeira com o filho nas costas
Há quem pense que se contenta
Que se anula e não sustenta
Sonhos e impulsos de pecar
Merecer e desfrutar de refletores e caviar.

Ela passa a roupa cantarolando
Espera pelo seu homem disfarçando
A tristeza e o suor.
Serve o jantar à luz puxada
Lava a louça conformada
E deita com a promessa de um afago
Que o marido deixa adiado...

O jeito é acordar sem ter dormido
Esquentando a água para o café
Se fazendo cafuné
E empurrando mais um dia...

Autoria: Ilka Vieira

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Vaidade Madura



Que me importa, se...
envelhecem os arredores da minha face.
Vive em mim um bosque florido... cheio de encantos.

Que me importa, se...
meus olhos não enxergam o colorido das vitrines.
Vê por mim a poesia dançante da lua
inebriando de sonhos a minha noite nua,
fazendo-se menina para o meu amanhecer.

Que me importa, se...
a vida fechou-me algumas estradas...
ainda grita em mim a voz do desafio,
salientando-se de vaidade madura,
desviando-me por caminhos de candura.

Autoria: Ilka Vieira

Escora



Enquanto mãos alheias
invadem a tua vida,
pernoitam na tua sombra,
tu te fortaleces e cresces.

Enquanto jogam pedras no teu silêncio,
ignoram teus motivos,
tu fazes calar o teu grito
e mais uma noite adormece.

Enquanto cortam os teus frutos,
teu suor escorre
tua boca seca
tua alma queima
tua força brota
teu corpo voa... se alimenta.

E quando teus frutos amadurecerem,
se não mais forem fortes as tuas raízes,
meu tronco ainda será o mesmo
e te colocará de pé.

Autoria: Ilka Vieira

O Amanhã



Não feches teus olhos, criança
ainda que te doa assistir
ao sangue derramado,
aos conflitos armados,
à falta do bem querer.

Não embaces a visão
faze da crise a experiência
do desassossego, a alegria
e planta uma flor na melancolia
até que o tempo 
subtraia as dores,
adormeça os rancores
e inspire os novos homens
à doce forma de amar.

Vê como o hoje é curto
e ainda não tendo como evitar o luto
tem gente grande demais pra chorar!

Assim que esse hoje virar passado,
tuas sementes já terão crescido
e o mundo estará mais amigo
sem resquícios do eversor.

Purifica a tua visão do futuro
acreditando que todos os muros
serão mãos dadas como
na brincadeira de criança
sacudindo a esperança
para um novo amanhecer.

Autoria: Ilka Vieira


O que faz de mim O Amor



O amor estreita-me 
Abre-me precipícios
Furta-me o brilho e a força
Envenena-me o sangue
Cria-me grades indestrutíveis
Tira-me os sonhos de fada
Deixa-me dormir na chuva
nas pedras... nas estradas
Anula-me os pontos de vista
Cospe-me em público 
e atira-me ao chão
Mostra-me assombração
Pesca-me farta de afeto
e devolve-me oca para a vida.

Autoria: Ilka Vieira