RENASCITUDES

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Canção da Dor



Depois que a dor adormeceu
minhas mãos suplicavam carinho.
Meu olhar falava baixinho
por medo de acordá-la... enfurecê-la.

Meus sonhos escondiam-se em cortinas d'alma
e, respeitando a magia da calma, 
murmuravam palavras de esperança.

Minha voz tão frágil... cansada
ainda me ninava com cantigas de amor.
Meus beijos aguardavam tímidos
pela chamada... pelo vigor.

Minha poesia empobrecia:
vestia trapos, rimas nuas
encobria metáforas cruas
dedilhava buscando beleza
nas sobras da tristeza.

Autoria: Ilka Vieira

Passos Estreitos



Vem dançar comigo
a melodia da lua
passos em desenhos estreitos
coração acelerando o peito
mãos ludibriando o respeito
e a lua espiando sem jeito...
Um troca-troca de pernas na pista
sinalizando desejos à vista
até resplandecer.

E deixemos que entre a lua
despida de preconceitos
fotografando e tirando proveito,
fazendo da alegria
a calmaria do prazer!

Autoria: Ilka Vieira

Hospedagem do Amor



Deitei-me sobre teu corpo belo e morno
conduzida pela máquina do prazer.
Mas o mesmo corpo que mata a minha fome
não toca meu coração ao amanhecer.

Um corpo sem cabeça
cabeça sem império
império sem riquezas
riquezas sem luar...

No teu corpo o amor não reside
apenas hospeda-se.
No entanto, 
ainda que pernoitante
volto sempre a criticar.

Quando saio, lavo o rosto
como se pudesse esquecer que te vi.

Autoria: Ilka Vieira

Passageiros do Meu Coração



Ainda guardo comigo os amores que por mim passaram.
Alguns deixaram flores, outros deixaram dores 
mas todos foram passageiros do meu coração.

Uma boa parte deles chamo de achado

outra parte, prefiro denominar como perdido... extraviado
mas todos provaram da minha fartura de sentimentos.

Aqueles que viraram o meu barco,

certamente souberam da minha sobrevivência.
Os que me resgataram, obviamente receberam lição de recomeço.

Regouguei frente a frente com muitos deles 

não por ira, mas por tese. 

Em circunstâncias raras, 

permiti-lhes fazer sangrar 
minha solidez, descuidei.

Alimentei os famintos de espírito

aumentei a sede dos apressados
dei corda aos dissimulados
salvei das minhas maldades 
os generosos, 
fugindo...

Acendi o fogo dos resignados

desregrei os perfeitos
enrijeci os pegajosos
lapidei os brutos... embruteci os polidos
converti em amigos os mais antigos
madurei... deitei à sombra de histórias 
cancelei meus projetos amorosos...
... e, por pouco não me sobro.

Já ia me fazer dormir,

mas optei por relembrar.

Autoria: Ilka Vieira

Nasce o Filho do Poeta!



É tarde!
O poeta não pode adormecer ainda
Sente as emoções do parto 
Um novo filho vai nascer!
Ainda não sabe o nome
Talvez um só pronome
Um verbo trazendo o passado
Ou um adjetivo ensaiado
Quem sabe um presente dos Deuses?
Ou um futuro abstrato 
Com descrição de um retrato...

Nasce o filho do poeta!

Chora de fome
Fome de afeto,
Carente, tímido em se mostrar 
Ou quem sabe, ousado
Será ele fruto do amor...
Da vingança...
Da melancolia...
Ou da esperança?

Sorri o filho do poeta!

Quer brincar com o mundo...
Com os corações...
Quer abraçar... dar-se em mãos...
Entrar nos sonhos e deles sair 
Sem deixar nada em branco...
Revestir alegrias e tristezas
De acordo com as sutilezas,
Independente das idades. 

Cresce o filho do poeta!...

Ah, quanta ansiedade em tocar um coração!
Quanta magia na procura...
Na máscara que esconderá sua loucura
Gerando o arremesso climático do prazer
Para quem acaba de renascer
Como fiel leitor... 
Ou mãe da sua própria dor.

Começa a andar o filho do poeta!

Mostra-se arredio... tímido...
Esconde-se por trás das cortinas
Quer sair correndo... tremendo... 
Temendo as críticas... as vaias...
Os olhares sedutores das saias
Ou as gravatas preconceituosas
Que deixam falir o melhor do prazer
Ou, quem sabe, morrer!

Vai amadurecer o filho do poeta!

Provavelmente,
Tornar-se-á um exemplo...
Diversos exemplares
Criticados... aplaudidos...
Imitados...
Com rugas... orelhados...
Menos circulados, mas...
Jamais esquecidos...
Fora de moda...
Sem pai... sem autoria!

Autoria: Ilka Vieira


Asas de Mel



Cola tuas asas e voa... 
ainda que partidas, voa... 
uma liberdade te espera
uma lembrança te calcifica
um sonho te confunde
uma saudade te invade
uma distância te chama 
uma vitória te grita
uma única verdade te basta.

Cola tuas asas... 
seca teus olhos... 
estende novamente os dedos 
e deixa escorregar por eles 
a suavidade que em ti 
permitiram sobreviver.

Autoria: Ilka Vieira

Vencedora



Sobrevivi a labaredas abertas
diante dos meus caminhos.
Ousei abrir passagens incertas,
defendendo-me dos espinhos.

Uni com perfeição
as partes mais quebradas.
E ainda que algemada,
salvei meu coração.

Perdi os anos na selva,
aprendizado duro e cruel.
Mas, poupando-me da relva,
transformei-me num corcel.

Venci fortes inimigos
com palavras de carinho.
Resgatei méritos antigos,
perdidos por desalinho.

A batalha mais complicada
- pela qual fui premiada -
venci nos últimos tempos:
entendi que a vida é curta,
não vale contra mim nenhuma luta
que não seja perdoar para viver.

Autoria: Ilka Vieira