RENASCITUDES
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terça-feira, 18 de março de 2014
Achamento
Não há uma única verdade que não traga consigo a sua respectiva amargura...
Hoje, venho àquilo que tanto me chamou...
Que me cegava de tanta nitidez...
Algo próximo em demasia, latejante,
vivo e que eu absurdamente ainda não vira: O EXISTENTE.
Impossível fugir-se desta ânsia louca em face da vida.
Que mal-estar! A proximidade da noite é fatal
e cada vez mais careço de tudo.
Como estou nada!
Diante de imaginárias perspectivas,
desvio o olhar para a vacuidade do jardim na varanda já tocado de noturna depuração.
A leve brisa noturna alagou as minhas azaleias de um aroma misterioso, indelével.
Um rumor surge úmido, agride-me no rosto, fecunda o silêncio,
projeta o medo, inaugura a angústia devagar...
O mais, é o lamento por precisar partir talvez breve...
Mas, ainda não há uma precisão incontrolável ,
sinto que ainda posso resgatar o poder de me retirar do precipício
sem me dar as mãos, sem iluminar as bordas...
Fortalecer-se por si mesmo não é ancorar o barco
no momento da tempestade, é preciso vencê-la,
ainda que vencida pela derrota de precisar morrer!
O sal da vida começa a ficar escasso, todos suplicam por ele ,
mas muito poucos chegam a degustá-lo.
A noite se prolonga e eu não saí do lugar, provavelmente amanheça
e eu ainda esteja bem longe de mim mesma.
Preciso despertar, é quase hora de comprar pão e jornal;
é preciso sentir o sal e saber da vida...
O beijo se perdeu do olhar e buscou a carne...
Pobre carne, contenta-se com tão pouco e morre beliscada
sentindo-se viva. Não, não é possível separar a alma do corpo,
sobretudo porque é preciso regê-lo!
E os sonhos chegam a mim como um cobertor,
agarro-me a eles como se fossem salvaguardar minhas emoções
e, finalmente amanhece, o sol perpassa o vidro da janela,
quase me toca e eu fujo, novamente degenero.
Que luta, eu comigo e a covardia se escondendo da Morte!
É preciso reiniciar o processo,
mas a madrugada não pode voltar ainda hoje,
a coragem, incompleta, expôs meio olho entre a poeira do vento
e a transparência da razão.
Novamente recuo, é a originalidade de inquirir-me:
— Que é de mim ? Resto, sim, soçobro!
É inevitável deparar-me com a minha inutilidade,
faço parte do exaspero que encima as coisas,
quase halo que vicia a natureza frágil do meu estar-no-mundo
de desencontros e incertezas...
Vem uma quietude pegajosa para mim e para o que é comigo.
O marasmo exige a dúvida:
a indagação provoca o nada,
alimento-me de solidão e jamais ela se torna indigesta.
No entanto, os que estão de fora sofrem pela minha solidão,
é o desconhecimento de mergulhar com inteireza nela,
compartilhá-la a não ser consigo mesmo.
Suspense: o indício de qualquer coisa de trágico deixa-me em pânico.
A rua escura, falta de paredes pra proteger os traumas deixados pela violência humana.
A minha casa ainda se parece com a solidão mais bonita,
aproxima-me do útero materno e ainda me dá condições de movimento.
Hoje, percebo o quanto me afastei de mim,
o quanto me faltou e ainda me falta para que eu possa ser tudo.
Sinto-me presa da minha própria cilada.
Fico querendo estar viva, porém como?
Reiventar-me a cada instante numa onda de amargura prévia e amorfa.
Tudo vai sofrendo, tudo vai morrendo.
Minha juventude, minha maturidade, minha vida, onde?
Há quanto tempo venho violentando-me?
Magoei-me e me expus sem perdões.
Uma força invisível, nascida desta estagnação nociva
já se alonga pela minha vida, infiltrou-se em mim, no que é meu.
Demoliu o edifício erguido em sangue, secretamente.
Minhas fundações trazem consigo o desígnio do perecimento
por rachaduras que não se veem a olho nú.
E vejo, o mal é comum, a angústia é padronizada.
Não, não adiantariam as drogas, eu sei.
Juntos e acotovelados uns nos outros e completamente sozinhos.
Pobre da gente, o ser a sós, cegos e loucos!
Nunca mais a calma pelos lagos, pelos rostos dos mais jovens,
pelos amantes sob as tardes frias dos domingos vazios...
A paz, onde?
Deus é o nosso grande ausente!
Noite sempre. Viver é detectar aflição.
Está parado o despertador. Meu quarto permanece nervosamente quedo;
ele que sabe tudo de mim, de todo o meu penoso desgaste em ser,
de toda a minha nulidade.
Vislumbro a decomposição de cada folha que escrevo,
todas com dizeres vagos e impublicáveis sobre mim.
O criado mudo tão gordo e atento à dilação de antigas desgraças
que aguardam depois dos móveis, sem pressa...
O telefone e o travesseiro sendo devorados pela atrofia...
Fernando Pessoa treslido não sei quantas vezes na mesa de cabeceira...
Silencio exatamente nas coisas, nos objetos... Nada é!
Fui insone. Hoje, uma de mim dorme
e a outra mantém vigília contra barulhos, contra a quebra da solidão.
Nossa, que tédio! Muito de mim tem sido levado para ninguém, por nada...
Que tempo é este? A noite perdura concentrando-se e investindo
contra a minha precariedade.
Agonizo. É que todo achado tem sempre o seu lado amargo.
A gente aprende a morrer. Vim à verdade das coisas por extensão , vim à mim.
É inusitado o modo pelo qual a vida se revela aqui.
Estranho mesmo o processo de aparição:
exaustivo, lento, inevitável e de construção dolorosa, enfêrma...
Em contagem, tenho toneladas de angústias....
Recordar é morrer!
Mas que regiões danadas são estas que atraem tanto os que estão em dor?
Que labirintos e abismos cegam os esgotados pela amargura?
Que desconhecido impulso os distancia assim de qualquer sentido de vida?
A noite lhes é propícia, eu sei. Que tempo é este?
Chega dá impressão de náusea, como se a gente quisesse botar algo pra fora
e não pudesse pela inexistência deste mesmo algo.
Fui apossada, é fato, de uma impotência que mais esmerilha a necessidade de gritar.
Há quanto tempo me faço desacompanhada pela vida?
Creio porém que a culpa disto não cabe efetivamente à modernidade,
talvez sim ao inelutável, esta energia anterior a tudo e de composição indestrutível.
Sou muito carente de quase tudo, sobretudo sou carente de mim.
Mas repilo o débil contato que seja, murando-me de inexistir.
Ah, como tudo é tão dolorosamente meu!
Agora é nunca. Sobretudo faz-se necessário o verão.
Acho que agora preciso sair pra comprar pão e jornal.
Mentira, isto é pretexto para saber de enseada, de sal e de vida.
Necessito de uma notícia de mim!
Que possuo de meu ainda que mereça preservação?
Aguardem-me meus amigos, meus vizinhos, minha família...
O que os desuniu, o que nos desuniu?
Venham somente na hora certa, venham ver uma condenada sem sentença
em sua reclusão absurda e determinada pela vida e pela morte.
Venham saber da minha pequenez!
Que determinismo é este que o homem ultrapassado da cibernética
nunca conseguiu minimizar?
A natureza humana me dá pena!
Enquanto isso amanhece.
À medida que a claridade perpassa minhas vidraças,
denuncia-se o abandono nos meus livros, no abajur ainda aceso,
nos meus sapatos pouco usados, nas minhas coisas mais íntimas, esquecidas...
Ser nômade nada resolve: a dor crônica da alma fica onde estamos.
No entanto, eventualmente, pode-se notar que alguns seres
livram-se rapidamente da promessa da dor, não têm vocação para a agonia.
Estou ameaçada de morrer. O embotamento parece insolúvel por ora.
Cada ser que andou por aí semelhantemente ameaçado não logrou êxito;
nenhum se livrou de sua respectiva cota de aniquilamento.
Incrustada numa pulsante expectativa, precisarei acompanhar
a gestação secreta de agentes que virão para a minha extinção.
Cogitações de toda ordem e crescentes, levam-me a hostis descobertas...
Levam-me à silenciosa e torturante experiência de ser...
Levam-me à contradizer René Descartes: "Penso, logo existo" (inexisto).
Uma luta desenvolve-se selvagem: eu contra mim!
Nossa, que coisa angustiante! Nem quando a gente se põe a comer,
concomitantemente o pranto vem, esqueci a fórmula de chorar.
Mas não há paladar, só a dificuldade de engolir, só um amargor que não tem fim.
Que vontade de sair fugindo da morte não importando para onde!
Fugir, fugir, fugir...
Eu menina outra vez nos cantos da sala, do quarto, da escola
resvalando pelos corredores escuros da dúvida.
Eu menina, esbarrando implacavelmente na contradição colossal da minha raiz:
bonecas, cachorros, álbuns de figurinhas, lápis de cor nacionais e importados
e, com a minha miséria íntima e incomensurável, apenas nada feliz!
Espio o derredor; expio a consequência de existir e precisar inexistir
sem que tenha o direito de escolher quando.
Mas é preciso deixar escorrer omissões pelas paredes.
A manhã é mais agradável quando úmida e mesmo assim,
as cigarras rebentam tecendo um cancioneiro que lhes exige a própria vida.
Rebento de ânsia. No entanto, estou apta agora a compreender melhor
esta mecânica de febre e delírio, de vida e morte...
Digiro melhor toda a brutalidade e profundeza desta minha tragédia súbita.
É o poço e, sem encostar nele sei que vou cair.
Reconheço, sou amarga comigo mesma, disfarçadamente tímida,
afásica e falto de assustar. Na verdade, sou menina sempre!
Chega, porém logo aviso:
este apontamento não pretende um estudo ontológico
e nem teoria nenhuma sobre a angústia, sobre a vida ou sobre a morte.
É apenas a minha vida, melhor, maior parte dela.
E vida não seria exatamente o termo certo, talvez semi vida, sub vida, nada vida...
Sei lá. O fato é que preciso exercitar a desintegração
sem jamais ter verdadeiramente me unido.
Tentei dizer de ausência, mas como dizer de ausência...?
Escrevi e morri por toda a noite, já não cabe mais nada aqui,
assim como já não caibo dentro deste quarto, desta angústia...
Sei que já não caibo em mim.
O diário e eu estamos gastos, não dei em nada e,
finalmente vou chorar!
De tudo, restou a esperança, O Amor adia a morte.
Parece-me que dei em tudo, vou sorrir!
Autoria: Ilka Vieira
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Magia das Lembranças
A Lembrança pendura momentos agarrados ao nosso pescoço. Sinto-me estrangulada quando a lembrança aperta minha garganta e não deixa o ar passar.
É uma saudade ou rejeição de vivê-los novamente com a mesma perfeição que ocorreram. Nada planejado, nada escrito para comprovar ou mesmo para ser repetido. Mas voltam a ser desenhados num enlace forte entre os olhos, o cérebro e o coração. Não há como tocá-los, momentos passados são lembranças e estas são abstratas, que pena! Há momentos tão curtos, tão rápidos que, se não forem bem desfrutados passam desapercebidos. Há quem nos aponte, há quem consegue senti-los ainda passando, mas é aquela coisa da gente procurar com os olhos e não ver, porque só o sentimento enxerga o passado. Os momentos sofridos doem tanto que me veem à boca com gosto de lágrima sem adoçante. Já coloquei muito mel em amarguras que precisariam ser adocicadas para serem guardadas, mas elas perdem o mel quando voltam a latejar, fugir da realidade é persistência inútil!
O fato é que os momentos não são mesmo iguais, por mais que os classifiquemos não chegam a ocupar no baú, espaços entre as semelhanças, sinto inclusive que os momentos exigem mudança de parágrafo, cada qual com a sua introdução e desfecho. O tempo ajuda, mas nós somos o vento a empurrar, bloquear ou a trazer em proximidade as nossas lembranças.
Há momentos que se tornam tão mágicos na lembrança que entram e saem da cartola como se fossem pombas e lenços a nos confundir. É preciso se despir dos preconceitos que fizeram parte das lembranças, porque elas não têm gênero e diluem idades, mas podem ser plurais e eternas.
Autoria Ilka Vieira
domingo, 28 de outubro de 2012
Saudade
Quase passo pela saudade sem a perceber, mas não! Não é justo deixar de notar esse sentimento tão forte, por vezes gostoso, por outras doloroso, chegando a tomar as rédeas das nossas atitudes, lambuzar as nossas vidas, partir em pedaços as estruturas que pareciam tão fortalecidas, tirar nossos pés do chão...
Saudade faz coisas tão inexplicáveis que merece maior atenção.
Eu já Sofri de Saudade dando murros nas sombras. Já sofri de saudade por alguém que não poderia voltar a ver. Já sofri de saudade boba, aquela cuja ausência se faz por apenas um dia. Já sofri de saudade por quem esteve encostado no meu corpo, mas não soube se fazer presente. Já sofri de saudade pequena, aquela que logo se reconhece não valer a pena.
Eu já Sorri de Saudade contornando boas lembranças. Já sorri de saudade da infância, aquela que só a doçura da criança escreve para jamais esquecer. Já sorri de saudade pensando na minha ingenuidade do primeiro amor. Já sorri de saudade das histórias de mentirinhas do meu avô. Já sorri de saudade das amiguinhas que guardaram meus primeiros segredinhos, não porque souberam guardar segredos para a vida toda, mas porque a vida toda não nos manteve amiguinhas. Já sorri de saudade dos sonhos que pensei tornar realidade, mas a realidade é tão dura que envelhece os sonhos sem lhes dar vida e personalidade.
Eu já Morri de Saudade de mim, aquela saudade que leva o melhor da gente, extravia...
Lição de Sol
Acabara de mudar-me da zona sul do Rio de Janeiro para a Tijuca, bairro da zona norte, tão ameaçado pela violência carioca quanto toda a cidade. A gente vai contrapesando a idade, os conceitos, as carências e até as praticidades da fase em que nos situamos e resolvemos fazer mudanças. É certo que, apesar disso, o medo continua em nós, não deixamos de temer tudo, quase levamos uma "subvida"!
Aluguei um apartamento agradável, com vista linear para os mais diversos prédios residenciais; vizinhos era o que não me faltava, desconhecidos, é claro! Por curiosidade ou fator ambientação, começava a especular, através das janelas, quem eram eles: se mal-encarados, curiosos, harmoniosos, desocupados, insones, tarados... O fato é que todas as minhas janelas eram muito indiscretas, tanto para eles, quanto para mim.
No entanto, a varanda, por ser mais aberta, dava-me a sensação de que poderia disfarçar olhando para os lados, caso fosse surpreendida por algum deles. Afinal, eu também não gostaria de ser especulada!
Diariamente, antes de sair para o trabalho, dirigia-me para lá, onde, de pé, ingeria o meu rápido cafezinho. O playground, logo abaixo da varanda, até que oferecia uma bonita paisagem: árvores de meia idade, plantas bem cuidadas, silêncio (pela ausência das crianças que provavelmente ainda dormiam), e passarinhos inspirando-me a sonhar!
Um desses dias, ao erguer um pouco a cabeça, meu olhar transpôs a vidraça de uma das janelas do apartamento em frente, deixando-me ver uma pilha de pastas semelhantes a processos normalmente estudados por advogados, juízes etc. E assim, começava eu a estabelecer um marco de identificação dos meus vizinhos, com base nos elementos que cada um deles me possibilitava captar. Tornou-se agradável a minha rotina matinal do cafezinho na varanda, principalmente por eu já acompanhar a rotina dos vizinhos com menos constrangimento e mais ousadia.
Certa manhã, conheci o dono da pilha de processos: avistei-o sentado, lendo... , lendo... Era exatamente como o imaginara: idoso, compenetrado e limpinho. Sentava-se diante das pastas, os cabelos molhados e penteados, como se tivesse acabado de tomar banho. Percebi que havia sido colada na sua janela uma folha branca na qual fora desenhado um grande sol... muito colorido. Esse fato evidentemente aumentou a minha curiosidade; a cada dia eu constatava que isso tinha que ter algum fundamento, pois o sol nem sempre era colocado na vidraça, mas a minha ousadia cobrava que o fosse, sem que o velhinho o soubesse! Quando eu saía para o trabalho sem ter visto o desenho do sol na vidraça ficava quase transtornada, porque também não o veria à noite: quando eu voltasse para casa, provavelmente já encontraria aquele senhor dormindo, luzes apagadas.
Uma ocasião, consegui vê-lo colocando o desenho, o que era feito como um ritual: colava-o e ali permanecia olhando-o por alguns minutinhos. Às vezes, sentava-se diante dos processos, mas o sol não era colado na vidraça...Por que não???
Num domingo ensolarado, lá estava o velhinho compenetrado na sua leitura dos processos, mas o sol não estava colado na vidraça. Foi aí que constatei o quanto sou audaciosa: chamei-o por um "psiu" insistente; quando o velhinho me olhou apreensivo, perguntei-lhe, gritando (talvez não ouvisse bem):
- Cadê o sol ; ...o desenho do sol ?
Ele me respondeu, sem gritar, mas de forma que eu o ouvisse:
- Eu a estou ouvindo muito bem e a estou entendendo, mas hoje não há sol!!
Então apontei para o sol que iluminava aquela manhã, provando-lhe que não era verdade. O velhinho acenou negativamente com o dedo e retrucou:
- O sol está dentro de cada um de nós; procure o seu, mas saiba lidar com ele quando estiver apagado!!!
Sorri-lhe apenas e me retirei da varanda, buscando o meu sol, que nesse dia, por acaso, estava enfermo...; talvez por isso, inconscientemente, estivesse querendo ver o sol do velhinho!
Passei muitos dias sem me aproximar da varanda, até que tomei coragem e procurei o sol do velhinho. Mas, dessa vez meu olhar atravessou a vidraça e...fiquei triste: o apartamento estava vazio. Nem pastas, nem velhinho, nem sol...
Fiquei tão triste por ele ter-se mudado dali...Será que ele se incomodou com a minha ousadia? Será que preferiu sair de perto de quem não sentia o seu próprio Sol ? Olhei por alguns dias aquele espaço vazio com imensa tristeza.
Aproximadamente um mês depois, indaguei sobre ele ao porteiro do prédio onde morava; fui informada de que havia falecido. O SOL dele permaneceu na minha mente, colado à vidraça, enquanto que o meu aplicou-me uma lição para toda a vida:
Ainda que dentro de mim faça escuro, precisarei renascer iluminada!!!
Autoria: Ilka Vieira
Alimento da Esperança
Era 2ª feira, verão carioca, e dirigia-me ao trabalho. Pensava no grande número de pessoas que estava de férias, aproveitando a praia, caminhadas com amigos, enfim, tudo que eu gostaria de estar fazendo...
O trânsito congestionado contribuía para o meu mau humor, mas que jeito?
Parei no sinal e, como carioca traumatizada, mantinha os vidros do carro fechado, o que não impedia assaltos, mas sentia-me enganosamente segura.
Percebi que algumas crianças de rua aproximavam-se dos carros parados pedindo dinheiro, coisa habitual. Com o narizinho espremido no vidro da minha janela, assustei-me com um olhar ingênuo de uma menina; fitava-me como
súplica. Perguntei-me: - Como pode um olhar se comunicar com tamanha força e conseguir persuadir mais do que palavras?
Senti um desejo forte de abrir o vidro do carro e, com todo receio de que por trás daquele encantador olhar alguém pudesse surgir e me atingir, não resisti e o fiz.
As mãozinhas, automaticamente levantaram-se, exibindo-me um desenho nitidamente infantil; ela balbuciou uma frase pedinte...interrogativa:
- Você pode comprar o meu desenho?
Evidentemente, mais do que no desenho, meus olhos fixaram-se nos olhos da menina e perguntei-lhe sorrindo: - Quem é você?
Ela me respondeu também sorrindo: - Sou Mariana!
- E esse desenho bonito, por que quer vendê-lo?
Ela parecia buscar uma resposta mágica, afinal sentia que estava quase atingindo seu objetivo; não poderia perder tal oportunidade e respondeu-me: - Para comprar um alimento!
A expectativa da minha resposta crescia no olhar da menina; o medo de que eu a decepcionasse chegava a quase esconder o sorriso que ela se empenhava em manter no rostinho com grande esforço muscular facial.
Ouvi buzinas insistentes acusando-me de congestionar ainda mais o trânsito, mas não conseguia engrenar a marcha do carro e sair do local; algo me detinha... e era o olhar da menina, dizendo-me muito mais do que o pagamento
pelo desenho poderia me transmitir. Abri a porta do carro e fiz sinal negativo com o dedo polegar para o motorista que se encontrava atrás de mim; os demais entenderam que o meu carro estava enguiçado.
A menina agarrou-se ao espelho retrovisor do meu carro e ficou observando cada uma das minhas reações. Felizmente, meu carro estava posicionado próximo ao meio fio e pude me acalmar, retomando a conversa com a menina:
- ...Mas Mariana, então você desenha e vende seus desenhos?
- Vendo!
- E por quanto os vende; qual o preço desse?
- Ué, o preço do alimento!
- ...Mas quanto custa esse alimento?
- Ué, o que você pode pagar pelo desenho!
- Você desenha e vende esses desenhos todos os dias?
- Não!
- Mas você precisa de alimento todos os dia, não é mesmo?
- É, preciso, mas nem todos os dias eu consigo desenhar!
- E quando você não consegue desenhar, de que se alimenta?
- Ah, me alimento de esperança!!!
- Coloquei na mão da menina todo o dinheiro de que dispunha (e que não era pouco), mas insuficiente para pagar pelo aprendizado que me concedera!
Autoria: Ilka Vieira
domingo, 16 de setembro de 2012
O Espetáculo da Solidão
A velocidade da vida me assustou e decidi que não vou acompanhá-la. Evidentemente, isto me torna cada vez mais só comigo mesma, já que o ritmo das pessoas é esticar as pernas, a mente, os desejos, a vaidade e o sucesso de acordo com a velocidade que a vida nos cobra. Aí, encontrar as pessoas significa obrigatoriamente estar por dentro das notícias, da moda, da música, do ator famoso, da política...
Não, eu não debato! Eu já não levo mais notícias e nem sei quem e o que está na moda! Eu estou na moda pra mim! Como pode estar na moda um novo carro, uma nova gíria, um penteado, se muito mais gritante que isso, a cada 5 segundos uma criança morre de fome na terra!
Isso não é um protesto meu, não é uma tese, não é uma campanha.... É a razão pela qual deixei de acompanhar a velocidade daqueles que nem sabem porque correm. Correm e correm praticamente juntos, porque a velocidade os impede de assistir as paisagens feias, tristes e piedosas.
Também já corri, também já quis chegar primeiro e já fechei os olhos cada vez que a vida tinha cor de morte. Agora, definitivamente, fechei os olhos para aquilo que me foi possível fechar e mergulhei na minha própria profundidade. A descoberta da minha impotência não fará de mim um propagador das desgraças e impurezas. Já que de mãos dadas com a impotência estarei sempre mal acompanhada, optei por ser um Ser írrito, mas solitário. Se é pra enfeitar a tristeza da vida, então vou enfeitar-me de solidão!
Não sei se quem se dói por solidão, se dói por falta de alguém ou por falta de alguém idealizado. Certa vez, criei com meus funcionários uma dinâmica de grupo e escolhi funcionários que sempre se mostravam muito carentes de amigos... de pessoas em suas vidas. Formei um número de cinco funcionários e quatro pessoas estranhas a eles, mas eram pessoas representativas que aceitaram participar desse grande espetáculo que é a possibilidade de cada um conhecer a sim mesmo e o outro.
Preparei a sala com as seguintes pessoas representativas:
1ª. Um senhor aparentando uns 60 anos; mal trajado, mal cuidado, com semblante melancólico, mas com mãos em calmaria.
2ª. Uma moça dotada de beleza física atraente, bem trajada, perfumada, sorridente, mas de comportamento elusivo.
3ª. Uma outra moça com apresentação tradicional, nada que impressionasse, tudo que estamos acostumados a ver nas mesmices do cotidiano.
4ª. Uma senhora aparentando quase 70 anos, com apresentação de quem empurra a vida sem pra ela olhar. Personalidade engraçada e de muitas falas.
Diante da sala representativa completa, pedi aos funcionários que entrassem e observassem atentamente cada uma das pessoas ali presente, dando-se ao direito de escolher e votar secretamente naquele com quem gostaria de desfrutar da companhia. A senhora engraçada e a moça dotada de beleza física atraente foram as únicas votadas. A primeira recebeu 1 voto e a segunda, 4 votos. Ou seja, o que as pessoas estão buscando é um envólucro bonito e colorido, independente do conteúdo que geralmente vem lacrado. Em nenhum momento eu disse aos funcionários que eles não poderiam conversar e/ou investigar as pessoas que alí estavam, mas também nenhum deles se interessou por esta possibilidade.
Hoje, eu tenho certeza que o grande espetáculo da vida é não viver agarrado, entrelaçado à alguém que está correndo na mesma velocidade da vida sem olhar para ela.
Eu quero estar solitariamente liberada a fazer a minha escolha... quero que o meu olhar solitário e desapressado seja recompensado por mim, ao ser o último a chegar, colhendo durante sua caminhada aquilo que o sensibiliza e pelo qual vale a pena viver!
Quando o sol nasce mais cedo e eu perco essa magia, sei que outra paisagem vou encontrar mais a frente do meu dia!
Sei que a vida não vai esperar pela minha letargia, mas eu posso e quero descobrir sozinha por qual caminho trilhar!
Não tenho pressa de viver, não tenho medo de viver e morrer desacompanhada, mas tenho fome de abraçar com o olhar!
Autoria: Ilka Vieira
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